Geografia Econômica e Reestruturação Espacial Contemporânea

Os economistas portugueses José Pedro Pontes e Regina Salvador (2009), no texto intitulado “A Nova Geografia Econômica”[1], apresentam importantes desafios para os investigadores da realidade econômico-espacial contemporânea, que podem ser assim sintetizados: [i] compreender o processo de globalização, em suas faces econômica e financeira, o papel das multinacionais, a crescente mobilidade da produção, entre outros, e a criação de uma nova estrutura que rompe com a velha e conhecida relação “Estado=Território=Riqueza”; [ii] apreender o crescente desaparecimento da fronteira entre economia internacional e economia regional, o que permitiu tanto no “Velho” quanto “Novo” Mundo a redescoberta do papel do espaço na atividade econômica; e, por fim, [iii] aprofundar o estudo da localização das atividades econômicas, tratando da competitividade entre cidades e regiões, acrescido de análise teórica e empírica.

Afinal, vivemos tempos de reestruturação econômica e espacial que devem ser analisadas de maneira entrelaçada: econômica, com a emersão de um novo modelo produtivo  e as diversas mutações na própria economia política com o alargamento interpretativo do sistema estatocêntrico westphaliano; e espacial, numa nova cadeia de cidades-força e uma miríade de redes (des)territorializadas de mercadorias, pessoas, informações e tecnologia. Não se trata tão somente do alargamento das bases espaciais e a emersão de novos modelos produtivos, nem tampouco a simples evolução do fordismo para um regime de acumulação flexível, mas sim de uma renovação ideológica da indústria contemporânea, que se oculta – as gigantescas plantas fabris submergem em áreas menos visíveis ao cotidiano da metrópole e das grandes cidades (em verdadeiros esconderijos espaciais!) – e se propõe menos opressora para com a natureza.

Reestruturação espacial contemporânea é o movimento engendrado hegemonicamente de adaptação do sistema produtivo a duas necessidades prementes: [1] um ajuste econômico-ambiental, com a adoção do modelo de desenvolvimento sustentável em substituição à obliteração acelerada da natureza, cuja base é geopolítica e que se consolida enquanto nutriz ideológica; [2] o processo de reestruturação territorial-produtiva, com o acerto do tempo do negócio fabril, seja com o just-in-time imposto à mercadoria e ao trabalhador, seja com o consumo dos bens que já nascem obsoletos ou do próprio território, cujos reflexos espaciais somente agora são verdadeiramente reconhecidos. Ajustando homem e natureza, tempo e espaço, tecnologia e necessidades produtivas, os dois processos ideológicos acima delineados não são antagônicos, mas complementares: o trabalhador deve ser ambientalmente educado e flexível, a fábrica ecologicamente correta e renovada em seu modelo industrial, e a cidade sustentável e pós-moderno-industrial.

[1] In: COSTA, José Silva; NIJKAMP, Peter (Coord.) Compêndio de Economia Regional – Volume I: Teorias Temáticas e Políticas. Caiscais [Portugal], Editoria Princípia, 2009.

O espaço é a morada do homem, mas também pode ser a sua prisão.

Milton Santos

O problema é que a nossa relação com a natureza tem sido completamente alienada e que não conseguimos vivenciar nossa integração com o mundo natura de maneira fluída e maravilhosa.

David Harvey

Uma economia mundial é uma grande divisão axial do trabalho, com múltiplos centros políticos e múltiplas culturas.

Immanuel Wallerstein